Rota Vicentina

Nem sei bem por onde começar a escrever. Já não estou habituada a estas lides de escritora num blogue de viagens. Este ano de 2020 está a ser, no mínimo, atípico. Um ano marcado pela pandemia do coronavírus, que parou a vida de todos. Para quem gosta de viajar para o estrangeiro, este ano esteve muito limitado. A maior parte acabou por conhecer melhor o seu próprio país.

Portugal é um país tão pequeno, e mesmo assim eu tenho a sensação que ainda me falta tanto para o conhecer… Pensamos sempre que o nosso país pode ficar para depois, quando formos mais velhos e não pudermos fazer viagens tão longas. Mas este ano, aparte uma breve escapadinha a trabalho para França, não saí do meu cantinho à beira mar plantado!

Assim sendo, arranjámos uma alternativa que “matasse” a nossa sede de aventura: a rota Vicentina, mais particularmente o trilho dos pescadores. É um caminho que se estende por 13 etapas, desde São Torpes até Lagos, perfazendo um total de 226,5km, seguindo sempre a linha costeira.

No final de Julho partimos de Lagos. Com ideias de levar a aventura ao máximo, decidimos que iríamos acampar e fazer as nossas próprias refeições. Não faltaram, assim, nas nossas mochilas, as colchonetes, os sacos-cama, a tenda claro!, a pequena botija de gás com o respetivo bico, o conjunto de cozinha de campismo que inclui tachos, pratos, talheres e copos, enfim, toda a panóplia necessária para sobreviver com qualidade no campo! Embora todo o material fosse muito leve, tanta coisa junta acaba por pesar, e provavelmente estávamos a carregar 10kg em cada uma das nossas mochilas.

Para quem não se lembra, no final de Julho houve um pico de calor em todo o País, mas que, obviamente, se fez sentir ainda mais no Sul.

Estavam, assim, reunidas as condições para a melhor caminhada de sempre!

Motivação havia.

A caminhada começou por volta das 7h da manhã, e já estava calor. Tínhamos decidido fazer as primeiras duas etapas da rota num dia, porque ambas eram à volta de 10km cada uma. O que nós não imaginávamos é que o trilho seria tão difícil.

Sobe arriba, desce arriba, e o calor sempre a aumentar. Às 11h já era praticamente impossível continuar a andar! Parámos numa praia. Foi neste dia que percebemos que ainda há muito Algarve por descobrir, e que nem todas as praias têm uma vila ao lado. Não havia sombra a não ser numa gruta debaixo da rocha. Ora, por muito medo que eu tivesse (e tenho!) que as arribas decidam cair quando eu lá estou, o calor era demasiado para sequer pensar em ficar ao sol. Então, tivemos que gramar com o cheiro a mijo e restos de papel higiénico que estavam na dita gruta. Depois de nos refrescarmos no mar almoçámos na gruta e dormimos (ou tentámos dormir) a sesta. Sucedeu que havia um bar na praia que nós julgávamos estar aberto, e portanto bebemos água à vontade. Quando começámos a pensar ir embora e quisemos comprar mais água, constatámos que afinal estava fechado. Informámo-nos acerca de onde poderíamos comprar água e não havia nada por perto.

Com o calor que estava ficar sem água era um grande risco, mas achámos que teríamos que seguir caminho até à próxima povoação, que era o nosso destino final: Salema, mas para o qual ainda faltavam uns bons quilómetros. Depois de mais uma subida e uma descida, já noutra praia, acabámos por pedir água a uns estrangeiros que ali estavam numa caravana. São estes momentos que nos fazem dar o devido valor à água.

Cansados, completamente transpirados, eu já só pensava para mim própria ‘porque é que me vim meter nisto?’ ou ‘eu não fiz nenhuma promessa para estar aqui a sofrer’, mas por outro lado, a minha voz oposta da consciência dizia ‘desistir é para os fracos’.

Chegar a Salema já foi uma vitória, mas ainda tivemos que andar mais meia hora para chegar até ao parque de campismo. Já no parque, montámos a tenda, fomos ao banho e, como não podíamos cozinhar devido ao risco máximo de incêndio, tivemos que ir comer ao restaurante (felizmente o parque tinha um!).

Fomos dormir para no dia seguinte acordar às 5h da manhã, para tentar aproveitar o fresco da manhã ao máximo.

Infelizmente o fresco da manhã passa demasiado rápido e por volta das 11h chegámos à praia da Zulema, e ainda não íamos nem a meio do caminho entre Salema e Sagres: desistir era a coisa sensata a fazer. Custou desistir, mas custava muito mais continuar. Foram demasiadas coisas juntas: o calor extremo, a caminhada exigente, o peso enorme das mochilas e o campismo.

Para a próxima tinha que ser só a parte da caminhada!

E assim foi, no dia 28 de Setembro começámos o trilho no sentido oposto, pensando fazer duas ou três etapas. Tentámos ser mais realistas desta vez.

Partimos de Porto Covo às 8h, e foram incomparáveis os três dias que se seguiram relativamente ao dia e meio que tínhamos experienciado da primeira vez. Não levámos material de campismo, portanto as nossas mochilas eram pequenas e leves, o tempo estava o ideal para caminhar, e o trilho em si também era mais fácil pois não havia subidas e descidas tão íngremes.

A costa alentejana é indescritivelmente linda.

A maior parte do trilho entre Porto Covo – Vila Nova de Milfontes – Almograve – Zambujeira do Mar é feito no topo das falésias, com vista para as escarpas que perfuram o mar de uma maneira impressionante e brutal. E por estranho que pareça, no topo dessas falésias feitas de rocha encontram-se dunas feitas de areia, areia daquela que custa a pisar. Questiono-me o que terá levado tanta areia para cima de todas essas rochas, e a resposta mais óbvia que encontro é o vento. Ainda não me dei ao trabalho de pesquisar este fenómeno que me intrigou durante todo o caminho. Talvez quem estiver a ler saiba e me possa deixar num comentário 😊

A Natureza é mesmo incrível, e não sei como é que esta rota não está pejada de turistas, de tão bonita que é. Ainda bem. Tenho a sensação que ainda é uma espécie de tesouro escondido de Portugal. Foram muito poucas as pessoas que cruzámos nestes três dias, e quase todas eram estrangeiras.

Para a próxima fica a parte do trilho entre a Zambujeira do Mar e Sagres, que estou já cheia de vontade de fazer.

Margarida

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