Pantanal: a realidade da desflorestação e produção de gado

Eu já estava consciencializada para o problema da produção de gado bovino e para o problema da desflorestação da Amazónia gerada pelos fazendeiros. Contudo, visitar o Pantanal, ao contrário do que eu esperava, mostrou-me “ao vivo e a cores” a dimensão do que se está a passar.

Antes de vir, pensava ingenuamente que o Pantanal seria uma reserva natural ou parque nacional, para preservar a elevada biodiversidade desta região única no Planeta! A verdade é que deixei o Pantanal com outra perspetiva, infelizmente.

Tudo ou praticamente tudo no pantanal brasileiro é propriedade privada. Não se visita o pantanal sem ser num passeio organizado, sendo que isso consiste em ir para uma das várias fazendas da região. Fazendas são áreas enormes, e quando digo enormes falo de dezenas de milhares de hectares, maioritariamente para produção de gado bovino (para que fique claro, chega a haver a “incrível densidade” de uma vaca ou boi por hectar!). Estamos a falar de áreas gigantescas que há uns anos atrás eram floresta virgem, cheia de vida!

Dentro destas fazendas há pequenas áreas que foram dedicadas à proteção ambiental e que são o foco da atividade turística das mesmas. A sensação é de entrar num oásis no meio do deserto, só que aqui são florestas no meio de pastagens. A diferença é abissal e inexplicável. É preciso vir e ver, para perceber verdadeiramente o que eu estou a tentar transmitir.

Há aqui vários problemas que me saltaram imediatamente ao pensamento e ainda não fui capaz de perceber completamente.

Em primeiro lugar, como é que os fazendeiros conseguiram ficar donos de áreas tão grandes. Pelo que consegui apurar, aqui ainda funciona a “lei do faroeste” – se desmataste este terreno, ele passa a ser teu passado uns tempos. E claro que isto é semelhante ao que se está a passar na Amazónia. Note-se que o Brasil é o país com maior taxa de homicídio a ambientalistas portanto, mesmo os poucos que se aventuram a proteger a Natureza sofrem as mais duras consequências.

Em segundo lugar, como é que o Governo Brasileiro não protege as áreas que ainda são virgens. Claro que isto é mais uma pergunta retórica, à qual toda a gente sabe a resposta: interesses económicos. A Europa já desflorestou o que havia a desflorestar e é rica. Ora, seguindo o raciocínio, agora é a vez de os países em desenvolvimento fazerem o mesmo. E o Brasil não quer saber se tem o pulmão do Planeta ou a zona com maior biodiversidade a nível mundial, ou o que quer que seja. Quer crescer economicamente. E quem pode criticar? Afinal, é este o sistema que temos!

Por fim, como é que o povo brasileiro não se revolta em relação a toda esta problemática ou, pelo menos, como é que não reduz a quantidade de carne bovina consumida. Mas claro que isto é um problema global e não um problema brasileiro. A verdade é que um dos grandes impactos positivos que podemos ter ambientalmente é deixar de comer carne ou, pelo menos, deixar de comer carne bovina.

Percebi realmente que, aqui, os donos das terras são mais poderosos do que os políticos. Aliás, mal cheguei a Bonito e perguntei se não poderia ir fazer umas caminhadas, disseram-me logo que podia, mas que me arriscava a levar um tiro, já que é tudo propriedade privada.

Fiquei, portanto, um pouco (para não dizer muito) desiludida em relação ao Pantanal. Imaginava esta região como o delta do Okavango, em África. No entanto, abriu-me ainda mais os olhos para os problemas ambientais e políticos que enfrentamos.

Parece-me que em vez de se andar para a frente se está a andar para trás.

A fazenda que visitámos foi a San Francisco, no pantanal do rio Miranda. Fizemos um safari nos campos da fazenda com uma caminhada numa área protegida dentro da mesma (apenas 700m), e um passeio de barco (chalana), com pesca de piranhas. Foi bonito, mas ao mesmo tempo triste. De qualquer modo, é notável como, mesmo nos campos com pastagens ou campos agrícolas existem tantos animais e tantas aves (ainda!).

Portanto, se puderem vir ao Pantanal venham. Podem sair desiludidos, mas não vão sair indiferentes. E provavelmente nunca mais vão comer carne bovina na vida (se olharem com olhos de ver).

Margarida

 

 

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