Roadtrip pelo sudeste brasileiro – Parte I

Chegámos à terceira e última etapa da nossa viagem de um ano: América do Sul.

Durante quase um ano conseguimos escapar ao Inverno mas, desta vez, não o conseguimos evitar! No entanto, neste momento escrevo do Pantanal e estou de calções e t-shirt. Posso assegurar-vos que o Inverno daqui não é nada mau!

Reduzimos as bagagens para duas malas de cabine, pois iríamos apanhar mais vôos e não queríamos ter de pagar por uma mala de porão. Não foi fácil, mas eliminando a tenda, as colchonetes e o kit de cozinha conseguimos cumprir o objetivo. No dia 6 de Junho apanhámos o vôo do Porto rumo a Campinas, onde tenho família.

Depois de um longo fim-de-semana cheio de encontros felizes e comidas deliciosas, alugámos um carro por 12 dias. Assim, poderíamos aproveitar ao máximo o sudeste brasileiro.

O Brasil é um país enorme, muito diverso e com muitas ligações históricas e culturais a Portugal. Infelizmente, devido à insegurança, é um País pouco turístico. Nós próprios também tínhamos receio. Felizmente apenas tivemos que lidar com pessoas extremamente simpáticas, afáveis e acolhedoras.

 

Tiradentes

Logo a começar pelo nome, esta cidade do estado de Minas Gerais despertou-me o interesse. O seu nome deve-se ao dentista mais famoso do Brasil, que se tornou um herói nacional após a Independência do Brasil.

Tiradentes foi um membro da Inconfidência Mineira, um movimento que conspirava para derrubar a coroa portuguesa. Vários foram os condenados, mas apenas Tiradentes foi condenado à morte, por enforcamento. Como se tal não bastasse, o seu corpo foi esquartejado e os membros espalhados em diversas cidades estratégicas desde o Rio de Janeiro até à cidade que recebeu o seu nome, servindo como “exemplo” do que aconteceria aos traidores da coroa Portuguesa.

A localização de Tiradentes na Estrada Real

A cidade de Tiradentes foi uma muito boa surpresa. Chegámos de noite mas deu para perceber que tínhamos entrado num local especial. A estrada era irregular, pavimentada com pedras pretas e grandes, e os passeios eram de calçada portuguesa. As casinhas caiadas de branco, com os umbrais das janelas e das portas coloridos de amarelo, verde, azul, vermelho… Estava tudo impecavelmente arranjado, como se fosse uma antiga aldeia alentejana, que permaneceu imutável no tempo.

Senti-me como numa ilustração de um livro de contos para crianças.

Corria uma brisa fria quando chegámos. Já era de noite. Agasalhados, fomos comer um caldo verde a um boteco da esquina. Não poderíamos ter encontrado um sítio mais genuíno.

As ruas estavam praticamente vazias, e o frio não convidava a grandes passeios. Além disso queríamos descansar, para poder percorrer todos os pontos de interesse desta cidadezinha na manhã seguinte.
A nossa pousada era também uma dessas casinhas que eu descrevi, certamente já há uns séculos de pé. Simples mas confortável, na manhã seguinte tivemos um “café da manhã” delicioso. Iríamos depois perceber que isso é a regra. Os pequeno-almoços brasileiros têm sempre frutas maravilhosas, pão crocante, e bolos caseiros de fazer querer sempre mais uma fatia. Não é um bom país para quem quer fazer dieta.

Com as energias reforçadas, aí fomos nós pelas ruas sinuosas de Tiradentes, maravilhados a cada esquina pela simplicidade e beleza deste lugar parado no tempo, cheio de charme e de História.

Depois de visitarmos os principais pontos de interesse da cidade, almoçámos e seguimos para mais uma cidade histórica, Ouro Preto.

Ouro Preto

No tempo dos portugueses esta cidade era chamada Vila Rica, e era a capital de Minas Gerais. Este estado é assim designado porque aqui se encontravam centenas de minas de ouro, que foram exploradas até à exaustão durante a corrida ao ouro, desde o final do século XVII e durante o século XVIII. Neste período estima-se que entraram no Brasil cerca de 3 milhões de escravos, muitos dos quais vieram a morrer nas minas de ouro.

Durante a visita guiada a uma das antigas minas de ouro, conseguimos ter uma pequenina ideia do que faziam aos escravos negros que aqui chegavam. Com uma esperança de vida de apenas 8 anos (desde o momento em que começavam a trabalhar nas minas), a vida de um escravo de mina era ainda pior do que a de um escravo de “sanzala”, trabalhor nas fazendas.

Trabalhavam 12 horas por dia num ambiente insuportável, não só por estarem dentro de um local pouco arejado, mas também por causa do barulho gerado pelos instrumentos usados na extração do minério. Eram alimentados com cachaça, milho e mandioca, em quantidade que mal os mantinha de pé. A cachaça era-lhes dada desde a viagem, com o intuito de os tornar alocoólicos.

Na verdade, para os colonizadores, os escravos eram como que animais. Nada mais do que isso. Até a própria reprodução era controlada pelos seus donos. Havia a parideira e o macho reprodutor. É duro perceber que os nossos antepassados foram capazes disto. É triste perceber que essas diferenças geradas pela cor de pele ainda perduram até aos dias de hoje.

Apesar de ter sido uma visita difícil, valeu muito a pena. A verdade é que na escola se fala apenas de um modo muito vago acerca da escravatura e do tráfico de escravos. A colonização portuguesa do Brasil não é nenhum conto de fadas, em que Portugal quebrou as barreiras do mar e de repente se tornou rico e numa potência à escala mundial. A colonização dizimou em primeiro lugar os nativos, e depois desfez a vida de milhões de pessoas inocentes, que trabalharam em condições piores do que os animais, como se não tivessem alma, apenas para enriquecer muito poucos.

O ouro que era extraído das diferentes minas do Estado era depois transportado para Vila Rica e posteriormente enviado pela Estrada Real (também designada Caminho do Ouro) até Paraty, onde era embarcado para Portugal.

Graças a todo esse ouro, Vila Rica tournou-se numa grande cidade. Muitas Igrejas foram construídas, com um grande valor artístico. É de notar o trabalho desenvolvido por um dos mais importantes arquitetos dessa altura, conhecido como Aleijadinho, filho de uma escrava. Deixo-vos com fotos legendadas dos principais pontos turísticos de Ouro Preto.

Igreja de São Francisco de Assis, uma das mais conceituadas obras de Aleijadinho
No interior da igreja está esta incrível pintura do mestre Ataíde, com a Nossa Senhora rodeada de Anjos. Sem dúvida a melhor pintura que já vi numa igreja!
O Altar-Mor da mesma igreja
Igreja de Santa Efigénia, frequentada na época principalmente por Negros.
O museu da Inconfidência
A Praça Tiradentes, principal praça de Ouro Preto
Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Igreja de São Francisco de Paula

Petrópolis

A história da Petrópolis tem início numa das viagens feitas por Dom Pedro I (do Brasil). No ano de 1822, durante uma travessia pela Estrada Real, que ligava o Rio de Janeiro a Minas Gerais, o imperador esteve hospedado numa fazenda da região serrana. Ficou encantado com o lugar e comprou uma fazenda e outras propriedades à volta.

Com a abdicação de Dom Pedro I, o seu filho Dom Pedro II herdou as terras. Ele ordenou o assentamento de uma povoação ali e a construção do seu palácio de veraneio, pronto em 1847. Desde então, durante quase todos os verões em que governou o Brasil, o imperador mudava-se com a sua corte para Petropólis.

A visita do Museu Imperial, no antigo palácio de D. Pedro II em Petrópolis, permitiu-nos compreender melhor a História do Brasil desde o “grito do ipiranga” em 1822 até à queda do Período Imperial, em 1889.
Os palácios que existem em Petrópolis estão muito bem preservados, e a paisagem circundate é maravilhosa.

Trono de fátima, no topo de uma colina com vista sobre a cidade

Margarida

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