Parque Nacional de Khao Sok

O parque nacional Khao Sok foi, diria eu, o ponto alto da nossa viagem na Tailândia. Quando um amigo nos disse que era algo a não perder, decidimos seguir o seu conselho, e ainda bem. Foi como uma cereja no topo do bolo!

Deixámos a ilha de Koh Phangan na manhã seguinte à full moon party [festa da lua cheia]. Como era de prever, o barco estava praticamente vazio. Chegados a Surat Thani, já na parte continental da Tailândia, apanhámos um autocarro que nos deixou em Khao Sok, onde ficámos nos “smiley bungalows”. Apesar do estilo espartano destes bungalows em madeira, a sensação de estar ao nível da copa das árvores era agradável.

O bungalow onde passámos a noite na pequena localidade de Khao Sok

Como já é hábito, não tínhamos nada marcado para explorar o parque nacional no dia seguinte, mas felizmente o nosso alojamento também operava viagens dentro do parque e tinha os seus bungalows flutuantes. Após um certo período de indecisão entre a tour de um ou dois dias, pois o preço era elevado relativamente ao nosso budget diário, fizemos a escolha certa: dois dias dentro do Parque Nacional, o que incluía as refeições todas, um safari de barco noturno e um matinal, uma noite nos famosos bungalows flutuantes, e ainda a expedição a uma caverna.

Khao Sok smiley lake house, em pleno parque nacional. 
A vista dos bungalows flutuantes era absolutamente incrível!

Muitos acreditam que a selva existente nesta reserva natural (local mais chuvoso da Tailândia) data de há 160 milhões de anos, tornando-a numa das mais antigas florestas tropicais do Mundo. Além da sua densa selva, pudemos também observar formações cársticas em forma de torre, algumas das quais irrompem do lago artificial cheow lan, inaugurado em 1987, após a construção de uma barragem para produção elétrica. Espécies selvagens podem também ser encontradas, tais como macacos, gibões, várias espécies de aves e ainda outras que infelizmente não tivemos a sorte de ver, como a flor gigante  Rafflesia (o período de floração já tinha passado), tigres e elefantes.

Depois de uma noite a flutuar, começámos o dia bem cedo com um safari de barco. O leve nevoeiro e alguns raios de um sol ténue a passar por entre as nuvens, tornaram este cenário em algo de místico. Muitos troncos de árvore aqui e ali salpicando a água do lago feito pelo Homem que as despiu de folhas, e de vida. Permanecem inertes, como se quisessem fazer valer a vida que outrora ali tiveram, mas que lhes foi tirada. Triste mas ao mesmo tempo belo.

Vimos alguns grupos de gibões e macacos na selva, mas não é fácil tirar-lhes fotos. Mal ouvem o barulho dos barcos, começam logo a fugir.

Depois do safari fizemos um trilho pela selva, que nos levou até à gruta de Nam Talu, onde tivemos uma experiência incrível! Na escuridão apenas cortada pela luz dos nossos frontais, vimos uma cobra, um grande sapo, muitos morcegos e algumas espécies de aranhas. A maior parte do caminho na gruta foi ao longo de um curso de água, e houve partes em que tivemos que nadar. Apesar da água fria, a adrenalina manteve-nos quentes!

Ao longo do trilho pela selva, o guia foi-nos chamando a atenção para certos seres vivos tais como esta grande aranha.
Ninho de tarântula.
Prestes a entrar na gruta de Nam Talu, mal sabíamos o que nos esperava!
Uma pequena amostra dos muitos morcegos que estavam a dormir dentro da gruta.
A “linda” cobra (sim, era venenosa) com que nos cruzámos no interior da gruta. Era mesmo muuuuito comprida!

No meio de tantas emoções fortes, tivemos uma mais triste, contada por uma das nossas colegas do grupo. Deixo-vos com um texto escrito por mim e publicado na nossa página de facebook, a 12 de Abril.

Margarida

“Nesta viagem já nos cruzámos com muitos viajantes. Desde os que estão a viajar por duas semanas até aos que viajam por sete anos e estão para continuar (até agora este foi o recorde que ouvimos da boca de um viajante).
As estórias que trocamos com as pessoas que se cruzam conosco, ficam também na estória da nossa viagem.
Há mesmo muita gente a viajar. Famílias, viajantes sozinhos (‘solo travellers’), hippies, viajante profissionais, viajantes de curto e longo prazo, viajantes que têm tudo planeado e outros que ainda não sabem o que vão fazer no próprio dia (na maioria das vezes, o nosso caso lol).
Diria que há quase tantos tipos de viajantes quanto destinos de viagens. Mas todos têm características em comum: o gosto por conhecer novos lugares, novas culturas, novos sabores.
Às vezes trocamos apenas umas poucas palavras, outras vezes desenrolam-se conversas mais demoradas.
Recentemente uma corajosa viajante trocou conosco a sua estória.
Estávamos no cenário idílico do Parque nacional de Khao Sok, na Tailândia, num barco que nos levou a fazer um safari matinal à procura de aves e macacos na floresta à borda do lago… A senhora de Singapura que vinha ao nosso lado e o seu filho pequeno, estavam a deitar coisas à água. Talvez comida para peixes, pensei eu. Mas decidi perguntar-lhe.
Começou por dizer que eram as cinzas do marido. O barqueiro parou o motor. A ocasião assim o pedia. “Eu era viajante assim como vocês. Conheci o meu marido numa viagem na América do sul.” Contou-nos como depois da América do sul foram para a Europa viajar de bicicleta. Tiveram o filho em Madrid. “Passado cerca de um ano decidimos ir viajar novamente de bicicleta para a Ásia, os três. Começámos na China e depois fomos para a Tailândia.” Foi aí que tiveram um grave acidente que envolveu um camião e do qual o marido não saiu com vida. Apenas ela e o filho sobreviveram. Isso passou-se em 2015. Por esta altura, perante o relato que ela ia fazendo, imagino que muito dificilmente apesar do sorriso com que ela tentava esconder a tristeza destas memórias, eu mal continha as lágrimas nos olhos. Como a vida é frágil. Como nunca estamos seguros.
Passado estes anos ela tinha decidido voltar ao local do acidente, ir ao hospital agradecer à enfermeira que tinha cuidado do filho enquanto ela estava hospitalizada. Foi também ao templo onde tinham enterrado as cinzas do marido, que ela ali trazia naquele momento, e fizeram uma cerimónia de encerramento do túmulo.
E ali estava esta mulher, com um sorriso, com um filho de 5 anos ao lado, e com uma vida muito diferente daquela que certamente ela teria sonhado quando se casou.
Toda arrepiada, não consegui dizer nada. Nem ninguém conseguiu.

“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”
Bernardo Soares in ‘Livro do desassossego”

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *