O norte da Tailândia

Depois de passarmos a fronteira do Laos para a Tailândia, a primeira paragem foi Chiang Kong. Foi mais uma paragem ‘técnica’ para cortar a viagem até Chiang Mai do que uma paragem turística. Por 5€, ficámos nuns bungalows sossegados e tínhamos uma piscina praticamente só para nós!

Seguiu-se mais uma viagem de autocarro até Chiang Mai. Mal chegámos, percebemos que tínhamos voltado ao ritmo frenético do sudeste asiático. Encontrámos um português que nos aconselhou a usar máscara porque aparentemente a qualidade do ar era péssima: “Pior do que em Banguecoque”, disse ele. Eu logo a pensar para os meus botões que queria era sair dali, pois sabia bem o quão desagradável tinha sido a nossa estadia na capital tailandesa.

Tínhamos escolhido um quarto apenas com ventoinha, o que foi uma péssima opção. Decidimos anular a segunda noite e marcámos outro hotel, com ar condicionado. Jurámos que não voltaríamos a cometer o mesmo erro! Independenetemente da diferença de preço, uma boa noite de sono é mais importante.

Chiang Mai não foi melhor do que Hanói ou Ho Chi Min. Entre o fim de Fevereiro e o início de Março fazem-se queimadas nos terrenos, pelo que já tínhamos lido que era má altura para caminhadas nos parques naturais circundantes. Isso e o facto de já termos feito uma visita à selva ainda há pouco tempo, fez-nos escolher explorar apenas a cidade.

Não há muito que ver. Templos e mais templos!

Ainda assim tentámos tirar o máximo partido da nossa estadia naquela cidade, e acabámos por ter uma boa experiência num dos templos.

“Ontem, num dos muito templos budistas que já visitámos, algo de novo aconteceu.
Descalços, lá entrámos. “Hello”, disse-nos um senhor que estava sentado numa cadeira de plástico junto à porta de entrada. “Take a picture”, acrescentou, fazendo-nos um gesto em direção às muitas imagens de Budas que estavam ao fundo.
Retribuímos com um tímido cumprimento e seguimos na nossa vida de turistas. Apreciar templos nesta altura já era muito difícil, sobretudo com o calor que se tem feito sentir. Já nos pareciam todos iguais. Os mesmos dourados, os mesmos vermelhos, os mesmos Budas de mil e um tamanhos, posições e cores.
Porém, esta visita foi diferente. Depois das fotos, o senhor da cadeira de plástico voltou novamente a falar connosco, com um grande sorriso na cara.
Desta vez respondemos mais efusivamente e aceitámos o seu convite para nos sentarmos nas outras duas cadeiras de plástico vazias que estavam ao seu lado.
Contou-nos um pouco da sua história.
Era voluntário ali há 15 meses e dedicava cerca de 50% do seu tempo útil a distribuir felicidade e esclarecimentos acerca do budismo. Auto-proclamado engenheiro da paz, uma profissão que lhe assentava que nem uma luva, e que deveria existir muito mais por esse Mundo fora. Tinha tirado um mestrado em Budismo, depois de uma licenciatura em Engenharia.
Nada óbvia esta mistura de saberes, não?
Explicou-nos os três princípios básicos que Buda transmitiu, há cerca de 2600 anos:
Not to do bad
To do good
Purify the mind.
Três princípios simples que, ainda hoje, continuam a ser extremamente necessários. Mais do que simplesmente não fazer o mal, fazer o bem, e purificar a mente através da meditação, que mais não é do que nos descobrirmos a nós próprios e vivermos no presente.
A vida do dia-a-dia torna estes princípios difíceis de seguir. Temos uma “monkey mind”, incapaz de se focar no presente. Estamos constantemente a pensar no que fizemos, de bom ou mau, ou a pensar no futuro. Porque há tanto para fazer e o tempo é curto (ou parece-nos curto, devido ao ritmo que levamos).
Compreender e aceitar a natureza humana e a natureza das coisas é o caminho para o nirvana, ou iluminação. Referiu-nos que essa iluminação não é algo de inatingível, algo que nunca ninguém poderá alcançar. Afinal, Buda foi apenas um homem, e na versão mais pura do Budismo, ele não tem super-poderes de Deus, o que torna esta religião, pelo menos neste ponto, diferente das outras.
Uma religião mais simples, sem céus e sem infernos, que aproveita o presente como ele é. Tal como as outras religiões, também procura essa realização, esse nirvana, essa felicidade pura, através dos bons atos que fazemos aos outros e através da pureza do nosso espírito.
Esta conversa foi como um reviver as sessões de catequese, onde também se discutia quem somos, o que fazemos, as razões que nos trouxeram até aqui a este momento, e se o que estamos a fazer contribui de algum modo para melhorar a vida dos que nos rodeiam.
Rapidamente ele concluiu que nos estava a fazer sorrir, e que nós o estávamos a fazer sorrir. Assim, tão simplesmente, naquele momento melhorámos as nossas vidas mutuamente. E é esse o papel de um engenheiro da paz, concluiu.
“E se todas as pessoas procurassem fazer isso, não viveríamos melhor?”, Respondemos que “Sim, muito melhor!”.
E assim, depois desta conversa inesperada mas tão cheia de sentido, seguimos a nossa vida, continuando a questionar quem somos, o que estamos a fazer, o porquê do que estamos a fazer e como podemos fazer o bem à nossa volta, onde quer que estejamos.” [Postado no facebook, 10/3/2019]

Margarida

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