Battambang e Phnom Penh

Deixem-me dizer-vos como planeámos a nossa viagem pelo sudeste asiático. Prometo que não vou demorar muito.

Até cerca de três semanas antes da altura em que queríamos partir ainda não tínhamos comprado o vôo. Depois de comprado, não tínhamos nada planeado. Eu estava a começar a stressar.

A uma semana do vôo tornou-se urgente pelo menos delinear o roteiro. Como é que numa semana se determinam todos os sítios onde pretendemos passar numa viagem de três meses por uma zona do planeta onde nunca estivemos?

Comprámos o guia do sudeste asiático da Lonely Planet (isto não é publicidade)! E, para descanso meu, logo no início estão várias sugestões de itenerários, com durações desde três semanas a seis meses. Ufa, o meu coração respirou de alívio! Pensei para mim, ‘já nos safámos’. Decidimos misturar dois dos itenerários e comecei a leitura, mas muito superficialmente. Apesar da minha mania por organização e planeamento, a verdade é que é ótimo planear à medida que se vai viajando. Sobretudo quando se trata de longos períodos de tempo.

Dito isto, não há melhor sítio para viajar sem planos do que o sudeste asiático. Todos os hotéis e afins são também pequenas agências de viagem, prontas a vender desde bilhetes de autocarro até viagens “à medida”. A preços bem melhores do que na net.

Depois de Banguecoque já tínhamos alterado os planos do guia, que passavam por uma ilha na Tailândia e por Sihanoukville (estância de praia no sul do Cambodja) antes de chegar a Siem Reap. Tivemos algumas dúvidas logísticas, mas acabámos por decidir ir a Battambang, o que nos cortaria ao meio a viagem entre Siem Reap e Phnom Penh. E que bela surpresa que foi!

Chegámos no início da tarde e logo um tuk-tuk nos iria levar ao hotel. Mal parámos, o condutor mostrou-nos um mapa com as atrações turísticas ali à volta. Só tínhamos uma tarde, queríamos ir almoçar e estávamos cheios de calor. Ficámos com o contacto e acabámos por marcar a visita a um templo, às killing caves e à gruta dos morcegos.

Valeu a pena ir a Battambang para ver um dos espetáculos naturais mais incríveis que já vi, acompanhado pelo pôr do sol sobre as plantações de bananeiras e coqueiros. Ao fim da tarde, milhões de morcegos saem de uma gruta na montanha e formam autênticas nuvens negras que vão rodopiando no ar. Não há filmagens ou fotografias que façam jus a esta dança!

As “killing caves” são grutas para onde eram atiradas as pessoas que morriam ou eram assassinadas durante o período do Khmer Rouge.
Quando o sol começa a desaparecer no horizonte os morcegos começam a sair.

Depois de uma noite em Battambang, seguiu-se a visita a mais uma caótica capital do sudeste asiático: Phnom Penh. Vá, não chega aos calcanhares de Banguecoque, mas andar em passeios e passar de um lado para o outro da rua, permanecem tarefas difíceis.

O que visitar em Phnom Penh?

Sem dúvida, o museu do genocídio Tuol Sleng é o que mais nos marcou e o que mais merece uma vista. O audio-guia é muito bom e permite verdadeiramente compreender a dureza daquele lugar. Inicialmente uma escola, tornou-se uma prisão secreta onde milhares de pessoas foram torturadas e morreram durante o Khmer Rouge. Nunca tinha estado num sítio tão triste.

O que se passou no Camboja foi algo que eu não conhecia até aqui. Durante quatro anos os revolucionários que estiveram à frente do Khmer Rouge puseram em prática a mudança social mais brutal e mais rápida de sempre. Intelectuais e médicos foram mortos. O simples facto de usar óculos era motivo para ser morto. As pessoas tiveram que abandonar as cidades para irem trabalhar no campo. Tiveram que deixar tudo para trás. A propriedade privada for abolida por completo. Fábricas foram fechadas. Deixou de haver escolas. O que havia era uma lavagem cerebral às crianças a favor do regime. No campo, todos eram obrigados a trabalhar como escravos, de sol a sol e a ração diária mal dava para manter estas pessoas com vida. Além disso, como não havia médicos, os doentes também não eram tratados.

E, assim, cerca de um quarto da população morreu num tão curto espaço de tempo.

Visitas a locais como este não são agradáveis, mas são importantes por nos ensinar a história. Com isso temos obrigação de pensar, de compreender como é que este tipo de regimes chegam ao poder. Compreender, para que nunca mais se repita.

Sobre este assunto, vimos o filme de 2017 “First they killed my father”, realizado por Angelina Jolie. Aconselhamos fortemente que vejam também, pois irão compreender melhor o que se passou por aqui.

Em Phnom Penh, complexos de luxo a imitar a arquitetura parisiense estão a ser construídos. Parece algo tirado de um parque de diversões temático!
Em primeiro plano vemos a estátua em homenagem ao Rei Norodom Sihanouk e, ao fundo, o monumento à independência.
Complexo do palácio real.
Museu do genocídio de Tuol Sleng.
Pormenor de uma das camas onde os prisioneiros eram imobilizados e seguidamente torturados. Na parede, a foto de um prisioneiro torturado. Este tipo de regimes totalitários que suprimem a dignidade humana documentam sempre muito bem tudo o que fazem. Há, portanto, muitos registos fotográficos e escritos acerca do que se passou nesta prisão.

Margarida

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