Nas margens do lago Malawi

Estou a andar no camião que tem sido a nossa “casa” nas últimas duas semanas. Estamos prestes a sair do Malawi, aquele que continua a ser um dos países mais pobres de África.

Olho pela janela, sinto o vento que ruidosamente passa pela fresta que está ao meu lado e vejo. Vejo a paisagem seca e a terra vermelha, as bermas da estrada cheias de plástico. Não há praticamente carros nenhuns a passarem por nós. Só pessoas a pé ou nas suas bicicletas já muito usadas. Vejo muitas mães com filhos às costas, abraçados por um pano de cores africanas.

Vamos passando por aldeias com casas feitas de tijolos da cor da terra, onde vejo crianças, muitas crianças, às quais vou acenando. Geralmente elas é que acenam primeiro, com um sorriso delicioso, que as veste com a mais bela roupa que poderiam ter. Apesar de sujas, apesar das dificuldades das suas jovens vidas, gritam de felicidade e acenam à nossa passagem. Tenho muito a aprender com elas, eu sei.

No Malawi passámos apenas três noites, junto ao lago Malawi, também conhecido como lago Niassa, o terceiro maior de África. Sendo um lago que já esteve ligado ao mar há muitos muitos anos, agora é um lago de água doce, com espécies únicas.

Ontem tivemos a oportunidade de fazer snorkeling e foi como entrar num aquário gigante! Peixinhos pequeninos em grande número e de muitas cores deixaram-me num outro Mundo.

Durante a tarde fizemos uma incursão pelas lojas que se encontram à porta do parque de campismo onde ficámos, em Kande Beach. Foi algo hilariante, e difícil de pôr em palavras. Mal saímos do portão e nos aproximámos da primeira “loja”, cerca de 15 pessoas que lá estavam sentadas vieram imediatamente der connosco. “Vem ver a minha loja”, dizia um, “vem ver a minha loja”, dizia logo outro. “Eu faço mapas de África onde assinalo todos os países por onde vocês passarem na vossa viagem, com o vosso nome”, dizia mais um que nos foi seguindo de loja em loja.

Todos com um sorriso na cara, e claramente sem medo da concorrência, tentavam vender-nos as suas pinturas e esculturas em madeira. Perguntaram-nos de que estávamos à procura. Era para oferecer a um bebé, e nós já tínhamos uma ideia em mente, mas que não encontrámos lá. Portanto, nas 5 “lojas” existentes, começaram a tentar encontrar soluções para a nossa procura. Foram todos tão prestáveis e via-se que queriam mesmo fazer negócio, o que nos deixou na difícil posição de ser capaz de dizer não a tal gentileza, mas teve que ser.

Depois desta pequena odeisseia, quando entrámos novamente no parque de campismo junto à praia, encontrámos um dos trabalhadores que nos disse “Está um hipopótamo no lago!”. “O quê? Um hipopótamo? Não é verdade!”, “Sim, sim, é verdade”, respondeu ele. Não estava a acreditar. Tinha lido na casa de banho os avisos acerca da possibilidade de crocodilos aparecerem por ali mais à noite, mas nunca tinha ouvido falar da possibilidade dos hipopótamos.

Eu e o João, à medida que nos aproximávamos da praia, começámos a ver bastantes pessoas a olharem em direção ao lago, e ninguém dentro da água. “Se calhar ele estava a dizer a verdade”, comentámos com um grande sorriso na cara. E não é que estava mesmo? Passámos por um amigo do nosso grupo que exclamou “Quase que morri! Estava um hipopótamo mesmo perto!”. Percebemos depois que estava a exagerar um bocadinho, e que o hipopótamo ainda estava a uma certa distância. De qualquer modo foi claramente assustador para o grupo que estava para ir fazer snorkeling e teve que voltar para trás. Eles não se viam facilmente pois estavam dentro do lago, e só vinham à superfície de vez em quando e por pouco tempo.

Ontem também houve quem tivesse feito uma visita à aldeia. Eu não fiz, mas fiquei a saber que na escola tinham 1500 crianças para 11 professores. Como é possível? Apesar de o ensino primário ser obrigatório, há pais que não conseguem pôr os filhos na escola, pois precisam deles para trabalhar, ou porque não têm dinheiro para pagar o uniforme, os sapatos e outro material que seja obrigatório.

Atravessámos o país de norte a sul, e uma coisa é certa. A vida aqui não é fácil, nada fácil, mas isso não impede as pessoas de sorrirem. A vida aqui, para a maioria, faz-se com menos de um dólar por dia. Aqui a pobreza é realmente extrema. Fico triste, pois sei que podíamos viver num Mundo muito mais igual, mais justo e mais pacífico. Há que lutar por isso.

Ser turista em África não é para todos, mas julgo que é das melhores maneiras de ajudar diretamente às populações locais. Fica o convite, até porque este é um continente apaixonante.

Margarida, escrito no dia 30/9/2018

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